quarta-feira, 7 de julho de 2010

Humano amor

Dos tantos papéis encarnados em teatros particulares, nenhuma atuação seria tão digna de aplausos quanto nossa humanidade. Tenho mania de superestimar meus amores e demasiar o grau das minhas relações sob um jogo intenso de cenas diárias. Grandes mestres fizeram da vida um teatro de fortes relações sem garantias de aplausos, nas juras de eternidade, nas promessas de onipresença.

Infelizmente, uma vez convencionados, é na morte que convertemos nossas omissões em desenfreadas e tardias homenagens as pessoas que amamos, armados de aplausos cheios de glória, protagonizados por corpos sem vida. A morte é repleta de silenciosos rituais xamanísticos: momento de rogo às forças desconhecidas por uma oportunidade reparadora que jamais será ofertada.

Dizem que por amor fabrico deuses com feições humanas, adorados em altares de dor e forjados além das águas do Estige. Não, não tenho a pretensão de transformar o que estimo em objetos de adoração, apenas celebro a vida esperando humanidade de quem aprecia o que é sagrado nas relações. Criticam-me por ser despojado de prioridades não-padronizadas, e em meu teatro de grandes verdades, mais vale os sentimentos intensos a relações ajustadas aos protocolos de convenção.

Minha humanidade é um legado às pessoas que insistem em sobreviver, que subestimam o poder das relações e se tornam indiferentes ao espetáculo de uma cumplicidade sadia. Trago junto à alma a estranha sabedoria de miracular meus sentimentos para ofertá-los com perfeição a quem amo. As pessoas deviam ter tempo para sentir como quem se despede, como quem anuncia uma partida definitiva, talvez assim descobririam que “deuses” são bem melhores quando sangram, quando repletos de mortalidade por se tornarem essencialmente amantes e prisioneiros do ultimo dia.


É preciso de alguma forma viajar até o fim das nossas histórias e reconhecer a importância dos momentos que não foram vividos. O amor tem urgência em ofertar os simples encontros e reencontros à eternidade de instantes passageiros. É preciso ainda abandonar a ilusão corriqueira de imortalidade e perceber que o amanhã não nasce para todos, porque a morte é a coisa mais triste para quem fica, porque a morte é gloriosa para quem parte, porque a morte.. sim, a morte, é da mesma substância de cada uma das nossas ausências.

p.s: Dedico este texto à Samara da Paz, que partiu enquanto eu o escrevia.